quinta-feira, 28 de abril de 2011

Caleidoscópio

Karen, 20 anos, gosta de cerveja, gatos, livros, homens altos e sem pêlos, barba, olhos escuros, rock e conversas interessantes.
Eu sempre fui uma criança comportada. Ou falsa comportada. Minha mãe ainda acha que eu sou comportada. Eu ainda sou comportada.
Eu era uma criança prodígio, melhor aluna e preferida de todas as professoras e da diretora na escola que estudei até a segunda série.
Eu inundei a escola nesse período porque achei que seria legal abrir a banheira do lado da sala da diretora (e, claro, colocar papel no ralo pra água não escoar). Ninguém sabe que fui eu. Eu quebrei um braço de um menino da minha sala no pré, porque eu empurrei ele da janela porque não queria ele em cima da janela. Ninguém sabe que fui eu. Eu prendi o dedo de uma menina na porta do banheiro porque ela era loira. Ninguém sabe que fui eu. Eu ajudei o menino da minha sala a colocar uma bomba no banheiro da escola porque o recreio estava entediante. Ninguém sabe que fui eu. Eu joguei areia no olho de uma menina porque ela não queria me emprestar a boneca dela. Ninguém sabe que fui eu. Minha primeira escola me traz muitas boas recordações como essas. Mas não se enganem, foi tudo muito divertido. E eu não era tão demônio assim.
Fui escolhida como atriz principal da peça de teatro da formatura da primeira série. Era a melhor aluna da aula de inglês. Minha professora da primeira série sempre me levava pra nadar na casa dela. A diretora me chamava na sala dela só pra conversar quando ela se sentia entediada. Eu fugia do serviço do meu pai, que era do lado da escola, pra conversar com a secretária.
As pessoas que me conhecem diriam que eu gosto de atenção. E gosto mesmo. Eu dançava em cima dos balcões do banco, da prefeitura e do correio quando ia lá com meus pais e sou conhecida até hoje por isso.
Eu também era muito simpática. Meu melhor amigo era um catador de papelão que passava em frente ao serviço do meu pai todos os dias, o Pernambuco. E também gostava muito do Tião, um cadeirante que ia muito no bar do lado do escritório. Além, é claro, das minhas duas melhores amigas, Talita e Ana Flora, que eu fazia questão de acordar 8 horas da manhã pra brincar comigo.
Quando eu ficava de castigo, já tinha o plano perfeito! Colocava uma cadeira em baixo da janela e pulava a janela. E, óbvio, deixava a cadeira na rua pra eu poder voltar depois.
Depois que eu nasci, meus pais me levavam pro serviço a partir dos 3 meses. Foi quando eu adotei a avó da Ana Flora pra ser minha avó. Ou ela me adotou, não sei ainda.
Eu tinha medo do Sérgio Mallandro e acho que até hoje, se alguém colocar o programa dele pra passar, eu vou sair correndo da sala, gritando e chorando quando ele for abrir uma das portas surpresas que eu não lembro o nome que tinham.
Eu tenho um irmão, o Illgner. Isso, I-L-L-G-N-E-R. Ele é quatro anos mais novo que eu. Quando éramos pequenos ele brincava de barbie comigo. Não porque ele quisesse, mas porque a gente negociava que depois da barbie a gente ia brincar de cavalinho. Eu nunca brinquei de cavalinho na vida. Ele também se vestia com as roupas das minhas bonecas de vez em quando. Ou melhor, eu vestia ele. E de vez em quando ele brigava comigo, mas eu era mais forte. Depois que ele me deu o primeiro soco e eu não consegui revidar, nunca mais obriguei ele a ser minha filha.
Sempre gostei de futebol e tentava jogar com meus primos, mas não tinha muito talento pra acertar a bola e fazia todos eles brincarem de casinha comigo quando eu cansava de tentar jogar. Eu era a única mulher e eles eram em 4. E cada dia um era meu marido. Menos meu irmão, mas não por que era incesto, mas porque eu gostava de mandar nele.
Eu confesso que tinha uma paixãozinha pelo meu primo. Pelos meus dois primos, aliás. Que são irmãos, diga-se de passagem. Mas a gente sempre viveu um triângulo legal, sem crises.
Eu perdi o contato com meus amigos da primeira escola, mas vi alguns recentemente. Todos os meninos que eu vi e que gostaram de mim, viraram gays. Mas ficaram magros, pq eles eram gordinhos na época. Então tem uma coisa boa nisso, né?



(não vou me estender mais por hoje. Como vocês puderam perceber, acho que vou escrever um pouco da minha vida também. Por enquanto foi só sobre o período da primeira escola. Prometo não me estender nos outros posts, se tiverem outros posts [se vocês gostarem].. Os fatos são todos verdadeiros, mas talvez com um pouco de exagero e ironia, mas acho que não preciso nem falar, né? ;P .. Enfim, comentem se gostaram pq se não funcionar, nem vou postar mais..)




;*

Go for it

Trecho do livro Máquina de Pinball, da Clara Averbuck. O livro inteiro é bom e é muito parecido comigo, mas selecionei esse trecho pq já escrevi sobre isso (talvez algum dia eu poste)..

"Senhor pedestre, favor olhar para os dois lados antes de atravessar. Já nem sei mais que horas são. Não quero saber. Quero saber onde você está, onde diabos se meteu, onde diabos se mete sempre. Quero saber o que se passa na sua cabeça. Quero saber se eu passo pela sua cabeça quando não estou no seu campo de visão. Porque você passa pela minha o tempo todo, a cada noite que fico sozinha querendo não me sujar por ti. Por mim. Por ti. Cada vez que saio de casa, espero te encontrar e espero que aconteça alguma coisa. Alguma coisa. Qualquer coisa. Você foi crescendo devagarzinho e, quando vi, era só o que tinha lá dentro, mal sobrava espaço pra mim. Sua cabeça está uma bagunça? Você não imagina o que acontece dentro da minha. Só que não tenho medo da minha própria cabeça. Sei o que fazer com ela, mesmo que seja bater na parede para acalmar as coisas lá dentro. Não tenho medo de me perder nem de fazer a coisa errada, desde que faça alguma coisa. E mesmo que não tenha volta, não vou viver na angústia do se. Eu tenho o go for it. Medo de quebrar a cara é algo lamentável, triste, deserto sentimental. O horror. O horror não são os erros, são os passos para trás ou as hesitações na hora de cruzar a rua. Se um carro me atropelar, vai ser porque não olhei para os lados, não porque resolvi atravessar. Pelo jeito, você quer mesmo ficar do lado de lá. Então fica e me deixa passar. Com licença."

sábado, 23 de abril de 2011

Até que ponto deixar de ser você vale a pena. Ou melhor, vale a pena?

Nos últimos três dias venho pensando bastante nisso. Será que vale a pena deixar de ser eu mesma pra agradar a maioria? E se sim, até que ponto?
Todos que me conhecem profundamente sabem que eu não tenho vergonha de ser quem eu sou. Não costumo me mascarar e as vezes isso é até ruim pra mim. Se eu sinto, eu falo, se eu quero, eu falo, se eu não quero, eu falo e se eu faço, eu assumo. E eu acho que quem leva a vida assim, meio "livre" paga o preço de ser alvo da inveja alheia. Inveja sim, porque só isso explica o tempo que as pessoas gastam falando de você pras outras pessoas. Parece que por sermos o que elas desejam ser, nós não temos o direito de ser felizes. E falo NÓS porque conheço um tanto de gente, homens e mulheres, que são assim e são alvos dos mesmos tipos de comentários imbecis que eu sou obrigada a ouvir também.
Como diz uma amiga, uma das coisas insuportáveis em algumas pessoas é a hipocrisia. A pessoa morre de vontade de ser como você, mas por medo do que pessoas como ela vão falar, ela fica só falando mal. E assim, fica numa bola de neve, onde essas pessoas pequenas, que não tem mentalidade suficiente nem pra sair do colegial, fica falando mal de outras pessoas só porque não podem ser como elas.
E isso, me irrita infinitamente. Porque visivelmente a pessoa tenta se igualar a você e não obtendo o mesmo resultado, começa a falar mal. Mas a cinco minutos atrás, a pessoa estava tentando ser igual a você.
E quando pessoas assim encontram seus iguais, aí fudeu. Fica um aglomerado de pessoas recalcadas, falando de uma pessoa que na verdade, não tá nem cagando pra elas. Pessoas insignificantes, com suas vidas de donas de casa de cidade pequena (nada contra nem donas de casa, nem cidade pequena), falando de alguém que na verdade não fez nada pra elas, além de não ter vergonha de ser quem é.
E como se não bastassem a falação, ainda querem ver você na lama, pra olharem com ar superior, mas que para mim significa: viu, você deve ser igual a mim, recalcada, que não sabe o que quer, porque eu não estou na lama como você, e sabe por que? Porque nem eu sei o que eu quero da vida. Porque eu não vivo pra mim, eu vivo para os outros. Porque a opinião dos outros é muito importante para mim. Eu sou recalcada, mas pelo menos eu não estou na lama.
Eu costumo não dar bola pra esse tipo de opinião, pra esse tipo de comportamento e menos ainda pra esse tipo de pessoa, facilmente identificáveis (e vocês não têm idéia do quanto isso está a minha volta diariamente). Mas esses últimos dias, devido a vários outros acontecimentos, me peguei num momento vulnerável e me deixei atingir tempo suficiente pra ficar indignada. 
Eu não digo que sou super feliz e completamente realizada, sem neuras, sem problemas pessoais, totalmente confiante e muito de bem comigo mesma, mas de uma coisa eu tenho certeza: dor de cabeça pelo que as outras pessoas pensam de mim, do que eu fiz ou do que eu falei, eu não tenho. Eu vivo intensamente tudo que eu vivo. Se for bom ou ruim, eu aproveito. Acho que tudo que acontece na nossa vida tem seu motivo e pra isso a gente precisa aprender a dar valor até aos nossos tombos. E sim, eu falo demais, sinto demais, quero demais. Mas não consegui identificar ainda qual o problema nisso. 
Quem sabe um dia, se alguém conseguir me explicar isso, eu passe a ter vergonha de ser o que eu sou.


(Quero deixar claro que esse tipo de comentário e comportamento imbecil atinge TODAS as áreas da vida, desde quantos copos de cerveja você bebe por semana (nooooossa, você bebe 5 vezes por semana???? Cachaceira. Ninguém vai te levar a sério!), quantas vezes você já namorou (séeeeerio que você já namorou 4 vezes??? Ninguém nunca vai casar com você assim!), que tipo de música você ouve (Você ouve Rock??? Homem que ouve rock é tudo cabeludo, barbudo, com tatuagem, brinco, gordo e que arrota na mesa. Seu pai nunca vai deixar você namorar alguém assim), os lugares que você frenquenta (CDA??? Olha as pessoas que vão lá pelo amor! Pra arranjar namorado você tem que ir no Buteco do Lu, lá sim tá cheio de homem rico), quantas vezes você enforca aula (Meeeeu, só essa semana você já faltou DUAS vezes. Que tipo de profissional você vai ser???), até infinitos outros assuntos. E sim, eu já ouvi TODOS esses comentários pelo menos uma vez na minha vida.)


E desculpem a revolta e o tanto de palavras em caps lock, mas é que eu já tô começando a ficar irritada com esse tipo de comportamento.








UPDATE:


E acabei esquecendo de responder a pergunta que eu fiz no título do post. Não acho que vale a pena. Até ponto nenhum.
Prefiro continuar bebendo minhas cervejas semanais quantas vezes me der vontade, namorar sem pensar se é o 5º ou o 15º, continuar ouvindo meu rock'n'roll, frequentar lugares onde tenha pessoas e conversas interessantes e música boa e enforcar aulas quantas vezes eu ache que a professora não sabe do que está falando. E continuar sendo eu mesma. Sempre.

domingo, 17 de abril de 2011

Indicação de filme: Sangue de pelicano.

Como eu ainda não defini sobre o que vai ser o blog, vou fazer posts de indicações de filmes que eu tenha gostado também. Não vou fazer de filmes comerciais pq é mais fácil encontrá-los. Então vou falar aqui sobre filmes que não são muito conhecidos e que eu ache que sejam bons.

O filme hoje é Sangue de Pelicano. Achei tão bom que tive que vir indicar.
Ele é um drama romântico, mas o romance não é comum, já que os dois são suicidas, que se conheceram em um site de suicídio. Só por isso já dá pra ver que o filme é tenso, né? E é exatamente isso.
Eu achei o filme bastante intenso e a relação dos dois é legal, se não fosse o fato de que eles fazem mal um para o outro, ao mesmo tempo que fazem bem.
O filme tem tudo pra ter um final super batido, mas eu me surpreendi e confesso que até chorei. hahahaha
A trilha sonora do filme é muito boa, com um estilo meio indie. Tem uma música da banda Clap your hands say yeah e as outras eu não conheço, mas gostei bastante. Além da fotografia ser muito bonita também.. ;)
E como adicional, ainda tem o charme do sotaque britânico.

(Como eu não sei fazer resenhas de filmes, peguei essa na internet:
Pelican Blood conta a estória de Nikko, um rapaz engraçado mas desajustado, que mora em Londres. Depos de uma separação desastrosa com sua namorada, Stevie, ele tenta viver a vida um dia de cada vez, investindo suas forças em seu hobby: observar pássaros raros, na companhia de 2 amigos. Um dia, Stevie reaparece em sua vida, e trazendo de voltas todos os conflitos emocionais que vivera antes. Sua irmã é contra a volta do casal, pois eles haviam se conhecido em um site de suicidas. Enquanto o relacionamento intenso entre os 2 se desenvolve, sua vida desmorona e vira um caos. O final é surpreendente!.)


Enfim, não sei comentar filmes, sem contar tudo, então só assistam. Vale a pena.





Só achei o trailer sem legenda. Sorry.

E aqui o link pra baixar (legendado): http://www.megaupload.com/?d=7S71AYLE




Bom filme. ;)

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Day 3 - Your parents

Queria deixar claro, antes de mais uma carta, que a carta do dia 2 tem destinatário sim. A carta é totalmente sincera e para uma pessoa específica e não uma criação, como eu acho que algumas pessoas acharam. O motivo de eu não ter colocado o nome do destinatário é evitar uma exposição que talvez a pessoa não goste, apesar de eu duvidar que o destinatário se reconheceu na carta. =)


Veber e Fabiane,

São tantas coisas que eu queria dizer para vocês que na verdade, nem sei por onde começar.
Eu amo muito vocês, sem dúvidas, mas me deixa triste saber que a gente não se dá muito bem em alguns aspectos, meu pai principalmente.
Eu entendo que talvez vocês não queiram perceber que eu cresci, que não sou mais a filhinha que pensa a mesma coisa que vocês. Mentira, não entendo. Eu queria muito que vocês me respeitassem e aceitassem que eu não tenho mais 12 anos, que eu tenho meus gostos e preferências e que eu não vou ficar pra sempre sob as suas asas.
Eu quero meu espaço, eu quero minha vida, eu quero ser por mim e não por vocês.
Talvez por isso minha maior pretensão hoje seja ir embora e morar sozinha. Como vocês mesmos dizem, eu sou egoísta, mimada e folgada, e por isso mesmo quero ir tomar conta de mim. Acho que vocês não me dão autonomia suficiente pra eu deixar de ser egoísta, folgada e mimada.
Não quero parecer ingrata, que desfaz de uma coisa que aproveitou por tanto tempo, quero só que vocês estendam que eu preciso crescer e que vocês não deixam, ou não aceitam.
E ao mesmo tempo que vocês não me deixam crescer, cobram de mim como se me deixassem.
Na faculdade estamos aprendendo muito sobre famílias. Talvez eu seja o bode expiatório da nossa, que serve justamente pra levar a culpa de tudo e manter a família unida, pois se não fosse assim, cada um teria que tomar conta de si separadamente e não de mim. Mas não dá pra aguentar muito tempo sendo bode expiatório. Eu pelo menos não aguento.
Como eu já disse, eu amo muito vocês e agradeço pela educação que me deram. Só queria que vocês confiassem nessa educação. Eu me considero uma boa filha, rebelde talvez, mas uma boa filha. E queria muito que vocês percebessem isso.


Sempre sua,

Karen.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Day 2 - Your crush

Sem nomes.


_,

É estranho te colocar nessa categoria. Estanho pra você, eu acho, pois a gente se conhece pouco. Quanto a mim, estou bem segura. É aqui que você deveria estar.
Eu publiquei há pouco tempo atrás no twitter a seguinte frase: "Wrong person at the right time or right person at the wrong time". Eu acho que estou no meu momento certo. Mas como dois é composto de um mais um, o momento precisa coincidir. E não é o seu. Eu entendo. E eu não poderia ser egoísta o suficiente pra te pedir para que seja.
A realidade que os personagens do conto do post anterior viveram acaba com toda a magia da coisa. E a história foi totalmente familiar para mim. Não se pode sentir na realidade. O sentir virou convencional. Eu tenho medo de sentir, mas mais ainda de expor meus sentimentos pois não gostaria que fossem mal interpretados. Por isso essa carta não tem nome apesar de ter destinatário.
Acho que talvez eu tenha sido um pouco precipitada te colocando aqui, mas é engraçado pq o sentimento também foi precipitado, mas impossível de resistir. E nem sei se foi recíproco.
Enfim, é difícil falar pra você. Já reescrevi esta carta umas 5 vezes e mesmo assim, ainda não estou satisfeita.
Só queria dizer com tudo isso, que eu queria tentar. Queria muito.


Karen.


(pensei em colocar algum apelido ou referência que poucas ou nenhuma pessoa entendesse, mas todos que eu cheguei eram meio óbvios demais.)

sábado, 2 de abril de 2011

Tonight it's you.

Primeiro conto que eu escrevo. Não reparem se ficou ruim. ;)


Final de festa. Todos os presentes já muito bêbados para prestar atenção em alguma coisa. Os que foram embora provavelmente devem estar se agarrando em algum canto escuro com seus pares.
Mas ela não. Ela não está nem bêbada o suficiente, nem se agarrando com alguém. Pelo contrário. Está sentada na escada, olhando a bagunça que deixaram na sala do seu amigo (que está bêbado demais para prestar atenção) e esperando. Esperando que alguma coisa aconteça e sente (ou deseja) que a espera valerá a pena. Sentada na escada, mini saia, tênis e jaqueta de couro, ninguém lhe dispensa atenção.
Menos ele. Ele, na cozinha, re-enchendo seu copo com a vodka barata que seu amigo comprou, a observa. Em meio ao caos, ela é a brandura. Parece tão certa, tão em paz, tão linda. Por medo de se aproximar, só observa. A noite inteira. Desde que ela entrou naquela casa, as pessoas perderam a graça, as bebidas perderam o álcool e toda vez que ele ouvia sua risada, a festa perdia o som. Ela parecia tão perfeita para notá-lo, tão estranho com sua camiseta velha e desbotada de sua banda favorita, o cabelo (que a mãe sempre insistia para que cortasse ou penteasse) todo desgrenhado, a barba de dois dias por fazer e seu velho jeans surrado.
A festa inteira ele a observou dispensando sorrisos para outras pessoas. Sorrisos que ele desejava (e fantasiava) que fossem pra ele. As conversas que ela tinha pareciam tão interessantes que ele desejava que ela conversasse com ele e não com as outras pessoas. Mas ela nem sequer notava-o.
Ela viu que ele estava na cozinha. E que a observava. Também, como não notar aquele olhar intrigante, aquele sorriso maravilhoso e estilo diferente daqueles rapazes pré-fabricados presentes na festa, com seus cabelos bem aparados, roupas de grife e barba bem feita? Ele era diferente e ela sentia isso. Quando ela entrou na festa e o viu, parou na mesma hora de desejar não estar ali. Porém, ele era popular demais para repará-la. A todo momento alguma loira de cabelos lisos o abordava, ou algum de seus amigos fazendo brincadeiras infantis.
E enquanto ele se divertia com outras pessoas, ela bancava a simpática e social com pessoas que ela não queria conversar. Imaginava aquele estranho em sua frente enquanto ria para pessoas que ela não conhecia ou conversava sobre coisas que ela não ouvia. Seus pensamentos conversavam com o estranho de cabelo bagunçado.
E ficaram se olhando. Imaginando como seria a voz do outro, o riso, o toque das mãos, sobre o que conversariam.
Para ela, ele era um cara de alguma banda legal que podendo escolher qualquer loira da festa, escolheria justo ela. Ele teria voz rouca, grave e sexy. Cheirava a couro e masculinidade. Conversariam sobre o futuro, sobre seus sonhos, sobre suas necessidades, até se perceberem almas gêmeas. Conversariam a noite inteira e no outro dia ele ligaria, ele se interessaria. Ele não vai deixar morrer.
Para ele, ela era a garota simpática que todos gostavam. A voz seria sensual, e seu perfume, marcante. Conversariam sobre música, filmes, a festa, os amigos em comum, até se reconhecerem iguais. No outro dia provavelmente ela estaria novamente cercada de amigos, mas ela os dispensaria por ele.
E ficaram longo tempo só se olhando e imaginando, quase satisfazendo suas curiosidades apenas com a imaginação. Ele na porta da cozinha, copo de vodka na mão. Ela sentada na escada, mãos embaixo do queixo.
Até que ela sorriu pra ele. E o sorriso desarmou todas as suas amarras e tirou todos seus receios. Ele atravessou o caos da sala, não reparando nada, apenas no sorriso dela. E se aproximou.
O sorriso que ela deu pra ele, foi totalmente involuntário, pois seus pensamentos estavam tão bem que não teria outra forma de demonstrá-los a não ser com um sorriso sincero. E ele estava vindo conversar com ela. E ela percebeu que a espera tinha valido a pena. E não enxergava mais nada, a não ser naquele estranho de cabelos bagunçados se aproximando.
Quando se encontraram, o reconhecimento foi instantâneo. Não precisaram se preocupar com o que falar, o que demonstrar, como falar ou se teriam silêncios desconfortáveis. Conversaram a noite inteira, sobre música, sobre o futuro, sobre filmes, sobre seus sonhos, sobre a festa, sobre suas necessidades, sobre os amigos em comum. E o tempo voou sem que eles percebessem. E a madrugada se transformou em manhã e os assuntos que queriam conversar, impressionantemente não acabavam nunca. Ela queria saber muito mais sobre ele, sobre aquele garoto estranho e interessante. Ele queria saber mais sobre ela, sobre aquela menina de personalidade forte e marcante.
E estenderam a noite perfeita o máximo que conseguiram. Se curtiram o máximo que puderam. E o amanhã chegou. E cada um seguiu sua vida como teriam seguido antes da festa. E as vezes se encontravam, as vezes conversavam, mas o reconhecimento mútuo não adiantou muito quando tiveram que enfrentar a vida real.