terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tristeza não cura com aspirina.. nem dor com penicilina. ;o)

Recentemente comecei a fazer parte do Andarilhos da Luz, um grupo de palhaços que, entre outras coisas, visita aos domingos a Santa Casa de Misericórdia de Franca (Esparadrapalhaços).
Não quero falar aqui sobre o grupo, mesmo porque ainda tenho pouca experiência pra falar sobre isso. Ao contrário, quero falar sobre uma coisa que eu sei e gosto de falar: eu. Ou, no caso, da Doutora Maria Pigriça.
Estar no hospital, para mim, é uma experiência mágica à sua maneira. Nunca fui do tipo que pendura uma melancia no pescoço para ser o centro das atenções ou, nesse caso, um nariz vermelho. Na verdade não sou muito acostumada de forma alguma a ser o centro das atenções. Sempre gostei de saber que eu faço bem às  pessoas ao meu redor, mas ver isso estampado no rosto das pessoas, que riem do que eu falo/faço ou me esperam ansiosas na porta dos quartos é uma experiência muito nova. E muito boa, diga-se de passagem.
A minha primeira vez, como todas as primeiras vezes da vida, foi traumatizante, de uma maneira não muito boa (pelo que eu senti e não pelas pessoas ou por alguma coisa que aconteceu), mas a segunda vez, ao contrário, foi apaixonante! Conheci uma menina tão linda, mas tão linda, que eu queria levar ela pra casa pra cuidar dela pessoalmente. Uma menina pequena demais pra saber o que é soro ou quantos mililitros de xixi ela precisava fazer para receber alta. Não sei o que ela tinha, mas sei que ela não deveria estar ali. Ela devia estar em casa, cuidando de suas quatro bonecas. Mas ao mesmo tempo eu penso que se for para o bem dela, que esteja ali então.
E aí entra nós, médicos besteirologistas, mágicos no tempo livre, buscando, ao máximo, trazer normalidade naquele ambiente estranho sem, contudo, fugir dele. Tentando incentivar a criança a tomar a pinga (soro), comer uma colherada de comida para cada coração desenhado na sua blusa ou beber toda a água que o cachorro de bexiga não conseguiu beber. Pois por mais que gostemos de conhecer uma criança, é muito triste descobrirmos que ela ainda está lá no domingo seguinte.
Na minha terceira vez foi o oposto da segunda. Mas não o oposto no sentido de satisfação ou felicidade que eu senti, mas o oposto na idade. Ao invés de ir na pediatria, eu fui na geriatria. E apesar de ser completamente diferente, foi igualmente compensador. O único pesar é que diferentemente da pediatria, onde o paciente é o centro das atenções, na geriatria o acompanhante é o centro, porque muitos pacientes não estão lúcidos, não conversam ou estão cansados demais pra dar bola para alguns palhaços. Mas ao mesmo tempo, adultos são tão receptivos e brincam e aceitam (e entendem) nossas brincadeiras de tal forma que me senti assim... uma palhaça. E descobri que eu gostei disso.
Eu sei que ainda é cedo (muito) pra falar sobre as visitas. Eu sei que em muitos domingos eu vou sair de lá acabada e não vou gostar. Eu sei que alguma coisa errada ainda vai acontecer. Mas essas poucas experiências que eu tive foram tão boas para mim, me deixaram tão bem, com bom humor pro resto da semana, até a próxima visita, que eu sinto que faria isso pro resto da vida. Fazer o bem sem olhar a quem. E toda segunda feira me vem o mesmo sentimento: depressão após um final de semana encantador. E durante toda a semana a mesma coisa: a espera ansiosa para chegar logo as 14h30 do domingo e eu poder abrir logo aquele pote de tinta com cheiro de tuti-frutti e colocar um laço vermelho na cabeça, que combina perfeitamente com a ceroula de corações da Doutora Maria Pigriça.



(Doutora Pompilha, Doutor Gaston e Doutora Maria Pigriça)

2 comentários:

  1. Sua atitude de integração, o cuidado com o assunto e o carinho ao relatar está sua experiência,me fez lembrar de um trecho biblíco bastante interessante...
    Paulo,o cobrador de impostos já transformado em servo de Jesus Cristo,escreve uma carta aos Corintios, que diz assim..."O amor é paciente, é bondoso; o amor não é invejoso, não é arrogante, não se ensoberbece, não é ambicioso, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda ressentimento pelo mal sofrido, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta"

    O amor é bom, e você participa de uma excelente experiência de atos de amor.

    Valeu

    Luciano Marques

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